Economia e mercado de trabalho – perspectivas para 2017-2018

Em entrevista para a Next, o economista Francisco Prisco fala sobre perspectivas para os próximos dois anos, desafios e como empresas e trabalhadores podem se preparar para as oportunidades.

 

 

  (*) Francisco Prisco é Economista, Consultor em Finanças e Avaliações Patrimoniais, Perito Judicial nas áreas de Avaliações Patrimoniais e Finanças, Membro da Ordem dos Economistas do Brasil OEB; Conselheiro do Conselho Regional de Economia São Paulo; Delegado do Conselho Regional de Economia – Vinhedo e tem mais de 30 anos de experiência como docente e diretor universitário.

 

NEXT: Como a Economia deve se comportar em 2017/2018?

 

Prisco: A crise política interminável no Brasil aumenta o temor dos investidores e empresários fazendo com que seja adiada a tão desejada retomada da economia. Os analistas econômicos entendem que as investigações em curso da operação “Lava Jato”, as delações duvidosas, a divisão do Congresso Nacional, entre outros, funcionam como desestabilizadores do Governo e comprometem a possibilidade da promoção das reformas econômicas essenciais para o país, como a da Previdência. Tais fatos dificultam a saída do País dessa situação incomoda, entretanto, alguns indicadores importantes mostram que a economia, mesmo com tantas adversidades, vem se recuperando, mesmo muito lentamente.

 

A expedição de caixas, acessórios e chapas de papelão ondulado foi de 281.976 toneladas em junho de 2017, com alta de 2,32% ante mesmo mês de 2016 segundo a Revista “O Papel”.  Em Maio o periódico já anunciava que a capacidade de crescimento da indústria de papel para embalagens nos próximos anos, entre outros segmentos, foi confirmada por especialistas no assunto, portanto demonstrando ser possível superar a crise econômica e se preparar para a retomada da demanda.

 

O índice que mede o fluxo de veículos nas estradas concedidas à iniciativa privada, produzido pela Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias – ABCR em conjunto com a Tendências Consultoria Integrada e divulgado em Agosto demonstra também uma evolução em relação ao ano de 2016. O movimento em Julho de 2017 dos veículos pesados cresceu em 3,1% em relação à Julho de 2016, sendo que essa evolução no mesmo período dos veículos leves foi de 2,1%, segundo a Associação.

 

Até 31 de março, os dados preliminares de medição coletados  pelo boletim InfoMercado Semanal Dinâmico, da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica – CCEE, que traz dados prévios de geração e consumo de energia, além da posição contratual líquida atual dos consumidores livres e especiais, apontavam um aumento de 1,5% no consumo e 1,7% na geração de energia elétrica no país, na comparação com o período de 2 de março a 1º de abril de 2016, entretanto, após esse período os números voltaram a demonstrar estagnação e até decréscimo.

 

O nível de utilização da capacidade instalada (Nuci) calculado pela Fundação Getúlio Vargas, ficou em 74,7% em julho de 2017, não obstante ainda abaixo da média histórica de 80,7% (início 2005), o percentual já está um pouco acima do pior momento da medição que foi em dezembro de 2016 (72,9%).

 

Os indicadores destacados são importantes pois podem sugerir uma direção do País, vez que pelo aumento no consumo de papel ondulado se infere um aumento no consumo de bens, bem como maior movimentação de cargas nas estradas, redução da capacidade ociosa, assim, tímidas sinalizações, mas boas perspectivas.

 

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) os investimentos no país cresceram 1,4% em junho em relação a maio, de acordo com o Indicador Ipea de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) com ajuste sazonal, entretanto na comparação com o mesmo mês do ano anterior, o indicador ficou 10,7% inferior ao verificado em junho de 2016. O indicador representa os investimentos das empresas em máquinas, equipamentos e material de construção, portanto a capacidade de produção do país. Ainda o Ipea justifica que o avanço entre os meses de junho e maio foi consequência principalmente do Consumo Aparente de Máquinas e Equipamentos (Came), cuja estimativa corresponde à produção doméstica acrescida das importações e diminuída das exportações, pois esse indicador apresentou alta de 4,1% no mês.

 

O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) também tem apresentado tímidas sinalizações de crescimento em relação ao ano de 2016 (0,04% em Maio/2017), entretanto, o primeiro semestre aponta para um crescimento de 1,46%. Ainda segundo o Banco Central do Brasil, a produção total de veículos apresentou um crescimento de 17,92% com   224. 763 veículos produzidos em Julho de 2017, contra 190 612 produzidos em Julho de 2016.

 

A expectativa é de controle da inflação, conforme demonstram os percentuais mensais do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), com sucessivos números negativos, conforme o mês de Julho que ficou em -0,45%, de acordo com o Banco Central do Brasil. As projeções do Relatório Focus do Banco Central do Brasil é de que esse indicador encerre o ano em 3.5%, portanto abaixo do centro da meta da Autoridade Monetária que é de 4,5%, o que não ocorria há muitos anos.

 

Tal comportamento justificou o Conselho Monetário Nacional baixar a meta de inflação pela primeira vez em 14 anos, como ocorreu em Junho de 2017. O controle da inflação cria um ambiente favorável para a redução da taxa básica de juros, a Selic, sendo que os analistas apostam para o final de ano numa taxa de 7,50% de acordo com o Relatório Focus de 14 de Agosto de 2017.  Com uma taxa de juros menor, as famílias gastam menos com financiamentos e empréstimos, valor que pode ser convertido em poupança ou consumo, consequentemente as empresas precisam produzir para atender a demanda, gerando empregos e assim, renda para os trabalhadores, com o Governo desembolsando menos em serviço da dívida, assim, temos bons ingredientes para aquecer a economia.  Como estatisticamente no segundo semestre outros indicadores apresentam bons resultados devido ao aumento de recursos no mercado pelo pagamento do 13º. Salário e o crescimento das vendas no final de ano há boas perspectivas para o encerramento do ano de 2017. Em relação ao ano de 2018, ainda com as ressalvas políticas já descritas, a expectativa é de sensível melhora.

 

NEXT: Quais são os desafios importantes para as Empresas?

 

Prisco: Considerando que o mercado assiste esse ambiente de crise já há algum tempo, as empresas operam com a filosofia “mais com menos”, procurando minimizar suas despesas e maximizar suas receitas, algumas operando com resultados negativos. Assim, é importante aos gestores ter a sensibilidade para notar os movimentos do mercado e assim, poder se posicionar para enfrentar os novos tempos. Estar preparado para os novos momentos do mercado e montar estratégias adequadas para a competição é tarefa complexa, mas para quem consegue a leitura adequada, diferencial para o sucesso. O primeiro desafio para o Gestor é conhecer a realidade de sua empresa e então realizar diagnósticos e estudos comparativos com outras empresas do setor.

 

Os gestores sabem que as estruturas foram enxugadas e que devem criar instrumentos para potencializar seus resultados dentro dessas restrições, exigindo assim, cada vez mais competência e determinação dos envolvidos pelas decisões.

 

É tempo de rever tempos, custos e processos e também pensar em inovação e criatividade que, em momentos de crise podem ser diferenciais.  Finalmente avaliar os clientes, pois sem eles de nada valem as estratégias.

 

As flutuações do mercado existem desde os primórdios e já na Bíblia temos o conceito dos 7 anos de vacas magras e 7 anos de vacas gordas. Guerra e paz, prosperidade e miséria, momentos que começaram a ser estudados mais profundamente com a Revolução Industrial, tendo em vista o aumento significativo dos movimentos financeiros, ficando claro a existência dos “ciclos econômicos”. Portanto, os “ciclos econômicos” graficamente são representados por ondas, e é preciso saber surfar nessas ondas para superar esses momentos. Para tanto, é um desafio importante do gestor ter visão 360º. para observar os movimentos do mercado e seu sentido, para traçar as estratégias adequadas. Observo que é importante o Gestor dar atenção à retenção dos talentos, pessoas chaves nesse processo, e assim, se deve mapear a força de trabalho e capital intelectual e sua importância no momento de crise do mercado. Já imaginou uma avaliação errada e esse talento no concorrente?

 

NEXT: Como isso impacta nos Trabalhadores?

 

Prisco: Em tempos de crise as empresas ficam mais exigentes na seleção e contratação de pessoas e procuram colaboradores que possam ser instrumentos de potencialização dos resultados, diante de quadros enxutos, pouco caixa, sem investimentos, mercado retraído.

 

Assim, a pressão é diária e os colaboradores são induzidos a se transformarem nos funcionários chamados de “multi-tarefas”, portanto, mais responsabilidades, mesmo salário, flexibilidade, vários chefes de acordo com sua atividade, assim, devido a redução no quadro de funcionários, a sobrecarga de trabalho é inevitável.

 

Esse quadro todo pode impactar negativamente nos trabalhadores, afetando a qualidade de vida e cotidiano, pois com o risco constante de demissão as pessoas se tornam mais ansiosas. Há que se tomar cuidado pois ansiedade pode gerar queda de produtividade e em consequência, potencial corte.

 

Há ainda os casos de famílias que possuem um desempregado entre seus membros, fazendo com que a renda familiar caia e assim, criando um desequilíbrio. Essa situação pode interferir nos outros membros empregados, pois podem ser influenciados gerar queda de produtividade risco de suas demissões.

 

NEXT: Como e porque eles devem se preparar?

 

Prisco: A sugestão para esse momento é realizar auto avaliação ou pedir ajuda de profissional especializado. Ter um bom feedback do chefe ou de terceiro especializado é bom para saber se está no caminho certo ou qual caminho deve adotar.

 

Observando que em caso de corte os itens de seleção são a entrega, determinação, envolvimento com o foco da empresa, positivismo, dinamismo, aceitar ser “multi”, postura, assiduidade, qualificação, entre tantos outros.

 

A auto avaliação deve também levar em conta os casos já existentes na empresa, de retenções de talentos nos cortes anteriores. Quais foram as competências eleitas para a retenção de talentos? Quais foram os funcionários chaves que foram mantidos? As respostas poderão indicar caminhos a seguir, qualificações, competências, especializações a se buscar.

 

Entretanto há alguns itens que tanto podem ser uteis durante o tempo que estiver empregado, como em caso de desemprego. A Qualificação. É importante que o colaborador faça uma avaliação da empresa, suas demandas de pessoal, as multitarefas que estão sendo exigidas e assim, desenhar um caminho a perseguir, principalmente, se qualificando para atender possíveis demandas e também construindo uma carreira com mais possibilidades.

 

Um item importante e que merece atenção é o caixa pessoal.  Os gestores das empresas observam a vida de seus colaboradores, seus comportamentos, vida familiar e constroem um quadro que no momento de corte pode ser eleito. O consumo exagerado, compras supérfluas podem demonstrar que há caixa suficiente para aguentar o desemprego em detrimento de outra família que tem o orçamento mais apertado. Há que se tomar cuidado com esse quadro e ser mais comedido, formando uma poupança, que inclusive em caso de demissão, pode ser útil. A falta de recursos para atendimento das demandas familiares pode levar a uma situação de desequilíbrio emocional, o que pode prejudicar na hora da concorrência e participação em entrevistas e processos seletivos.

 

NEXT: Onde estão as oportunidades de Emprego?

 

Prisco: Os especialistas da área de Recursos Humanos estão habilitados a prospectar essas oportunidades, pois, como os gestores das empresas devem ter visão 360º. para detectar os nichos de mercado e definir suas estratégias, assim esses profissionais avaliam o mercado e suas possibilidades. Observe-se que a importância desses profissionais já foi aqui descrita inclusive na fase em que o colaborador está em dúvida sobre sua capacidade em manter seu emprego.  Tal como na resposta do primeiro questionamento, foram identificados alguns indicadores que demonstram um crescimento do setor, os profissionais de Recursos Humanos têm instrumental para detectar as áreas que podem estar mais propícias à contratações, assim, a leitura dos movimentos das empresas e Governo podem demonstrar um vetor a se seguir.  Ainda se deve observar pelos indicadores setoriais, qual setor teve mais impacto durante o período de crise ou que está tendo recuperação mais rápida.

 

As áreas de tecnologia e prestação de serviços têm demonstrado capacidade maior de contratação nesse período bem como aquelas voltadas à inovação ou modelos de negócio de crescimento rápido (start ups). Os serviços on line também apresentam indicadores de crescimento interessante. As áreas alimentícias e farmacêuticas, por serem de necessidade premente, sempre tomam a dianteira na retomada do mercado, também apresentando oportunidades.  Os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, além de corroborarem com essas informações, indicam a indústria calçadista, têxtil, vestuário e serviços médicos e odontológicos contratando. O importante é se detectar qual o melhor canal para buscar assessoria nesse momento, ou seja, quem estará melhor qualificado para atendimento nesse período tão crítico.