ENTREVISTA

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COMO A TECNOLOGIA ESTÁ IMPACTANDO O MERCADO DE TRABALHO

Em entrevista para o INFONEXT, Valter de Oliveira fala sobre os impactos da tecnologia no Mercado de trabalho.

INFONEXT: Como a Tecnologia está impactando nossas vidas?

Valter:Se você acha que a tecnologia está impactando nossas vidas hoje, espere para ver o que vai ocorrer no futuro. Temos que estar preparados para esta evolução e aproveitar ao máximo as oportunidades geradas. Como se fosse um filme de ficção científica produzido há poucas décadas, convivemos com a disponibilidade de tecnologias a custos acessíveis tais como, acesso a internet banda larga, televisores de alta resolução, jogos eletrônicos sofisticados, computadores (tablets, notebooks, etc), GPS, mapas e imagens do mundo todo, ferramentas de comunição com imagem e som, sistemas de transporte conectados e sincronizados, veículos econômicos e seguros, aplicativos para os mais diversos fins e armazenamento quase ilimitado de informações. Ou seja, a tecnologia está presente e acessível no nosso dia-a-dia.

Entretanto, a transformação está apenas começando. Google, Apple, Microsoft, IBM, Amazon, Intel, Facebook, Tesla, Uber, Spotify, 99POP, YouTube, Netflix, Ebay e Mercado Livre, entre tantos que poderiam ser listados, marcam a consolidação da revolução digital, com a mudança da tecnologia analógica para a digital, que tem início na segunda metade do século passado e hoje apresenta pleno crescimento com comportamento exponencial. A revolução digital é uma representação clara do comportamento exponencial do crescimento tecnológico evidenciado pela Lei de Moore. Gordon Moore foi o fundador da Intel, que desenvolveu o microprocessador e transformou a tecnologia no elemento central dos negócios atualmente. Em 1965, Moore publicou artigo científico tratando a evolução tecnológica e previu que a capacidade de processamento dos computadores poderia dobrar a cada dois anos. Na realidade, nos nestes mais de 50 anos observou-se que a taxa é um pouco maior, dobrando a cada 18 meses.

O comportamento exponencial pode ser encontrado também na tecnologia, basta observar a inserção de uma inovação sustentada por tecnologia como Uber ou Spotify e verificar a evolução de utilização e faturamento associados a estas tecnologias. O comportamento exponencial em substituição ao comportamento linear caracteriza o termo comum tanto aos negócios como à tecnologia, denominado “Disrupção”, oriundo do termo em inglês Disruption, cunhado por Clayton Christensen, professor de Administração na Harvard Business School.O fenômeno da inovação disruptiva tem propiciado o surgimento de startups de sucesso, dotadas de produtos inovadores, com crescimento exponencial de faturamento e abrangência de mercado, denominadas Unicórnios, termo que classifica negócios com valor de mercado igual ou superior a 1 bilhão de dólares.

Neste contexto de inovação disruptiva, o Fórum Econômico Mundial estima que já em 2025, 10% das pessoas estarão utilizando roupas conectadas a internet, 90% terão acesso a internet e usarão smartphones, 10% dos veículos nos EUA serão autônomos, a impressão 3D será responsável por 5% da produção de bens e a inteligência artificial realizará 30% das auditorias.

Já o Singularity University Global Summit 2017 discutiu algumas estimativas bem mais ousadas para o futuro, como, por exemplo, a possibilidade de em 2030, com 1000 dólares adquirir poder computacional equivalente ao cérebro humano e em 2050, com os mesmos 1000 dólares o equivalente a todos os cérebros humanos juntos. Se em 2017 temos 3 bilhões de pessoas conectadas a internet, até 2025 teremos o mundo todo. Carros elétricos tendem a possuir 90% menos partes móveis que os a explosão, resultando em redução drástica de custo de produção e manutenção nos próximos 5 anos, tanto que na China, em 2020, toda sua frota de taxis será formado por carros elétricos.  Em 2020, 80% do relacionamento com clientes se dará através de máquinas. E finalmente, entre outras estimativas, no futuro o número de máquinas superará o número de humanos e robôs serão considerados uma opção de força de trabalho, semelhante a funcionários e terceiros.

Ainda na linha de projeções futuras, desde 2001, o MIT Technology Review divulga anualmente as 10 tecnologias inovadoras que podem afetar a economia e a vida cotidiana. Se observarmos as duas últimas edições, 2017 e 2018, encontramos tecnologias inovadoras em diversas de áreas de conhecimento, como: implantes celebrais destinados a reversão de paralisia, criação de embriões artificiais, evolução nas terapias genéticas, viabilidade de computadores quânticos, câmeras 360 ​​graus com custo acessível, viabilização de cidades com amplo controle e sensoriamento, novos tipos células solares muito mais eficientes, crescimento da internet das coisas (IoT), computadores programando computadores, máquinas com senso de imaginação, popularização da inteligência artificial, impressoras 3D para peças metálicas, fones de ouvidos tradutores, carbono zero na energia a base da gás natural e privacidade online garantida.

Todas estas estimativas e projeções de futuro (algumas já totalmente atuais) poderão não se concretizar plenamente, entretanto se considerarmos apenas parte delas o futuro nos reserva um conjunto de surpresas e oportunidades e uma consequente alteração no mercado de trabalho. 

INFONEXT: Como estas mudanças impactam o mercado de trabalho?

Valter: Estas mudanças no comportamento das pessoas, a evolução tecnológica e, principalmente, a velocidade e a intensidade com elas acontecem resultam em profundas ransformações no mercado de trabalho.A revolução digital, assim como ocorrido com a automação, transforma as relações do mercado de trabalho extinguindo profissões e criando diversas e ilimitadas possibilidades e oportunidades.

Se considerarmos que o mundo vive uma forte tendência de urbanização e que podemos esperar para 2030 que 90% da população será urbana. Além disso, estima-se que, também, em 2030, teremos uma distribuição da força de trabalho com 90% destinada setor terciário e os outros 10% divididos entre os setores primário e secundário, ou seja, o setor de serviços como responsável pelo grande volume de atividades desempenhadas pelas pessoas. Tamanho crescimento do terceiro setor permitiu o seu desdobramento em setor quaternário, que engloba os serviços associados a dados, informação e conhecimento, e o setor quinário, representando os serviços sem relação direta com o lucro, como ONGS por exemplo. Cabe ressaltar, que destes 90% estimados para serviços em 2030, 20% serão os serviços tradicionais que conhecemos atualmente (setor terciário) e que os outros 70% representarão os serviços enquadrados como quaternários e quinários.

A conectividade levada a um limite nunca antes alcançado, com segurança, velocidade e cobertura, associada ao desenvolvimento e crescimento da Internet das Coisas (IoT) que oferecerá novos canais de comunicação, coletada de dados, controle, sensoriamento e conectividade, permitirão uma importante interligação entre o meio urbano (densamente ocupado) e o interior, viabilizando o tratamento das cadeias produtivas de valor, independentemente de sua localização física no Brasil e no globo (ou talvez fora dele!).

Pessoas poderão trabalhar, por exemplo, na cadeia produtiva do agronegócio mesmo residindo nas grandes ou pequenas cidades. No relatório The Long View, apresentado pela Price WaterHouse Cooper com estimativas econômicas para o mundo em 2050, o Brasil será a 5ª economia mundial, com um PIB de US$ 7.5 trilhões, sustentado de forma marcante pelo agronegócio. Inegavelmente, o agronegócio é o caminho para o Brasil alcançar o protagonismo na economia mundial, com desenvolvimento de tecnologia tropical e localizada.

Outro fator que deve ser observado envolve inovação e empreendedorismo, que resultam em relações de profissionais diferenciadas e estão presentes tanto em grandes corporações como em pequenas empresas e startups.

Diversas corporações estão trabalhando na descoberta, desenvolvimento e manutenção de linhas de inovação e incentivando a criação de startups internas e externas (através de aceleradoras). As startups internas são formadas por profissionais da corporação com características de funcionamento e risco semelhantes às startups externas, com índice de insucesso elevado, desenvolvidas no bojo da corporação, mas com cobranças de retorno de capital menos acirrado, estimulando a liberdade de criação e a possibilidade de “tirar a cabeça fora da caixa”.

 

  • Leia na edição de agosto do INFONEXT a segunda parte desta entrevista: Como os profissionais de hoje podem se preparar para estas mudanças?

 

 

VALTER DE OLIVEIRA é Sócio-Diretor da VCO Consultoria, especializada em projetos de P&D sustentados por fomentos públicos e privados. Certificação PMI-PMP, com 30 anos de experiência na gestão de projetos de TI, Telecom, ERP e Gestão do Agronegócio (Telebrás, CPqD, Signalcard e FACTI).
Doutor em Engenharia Mecânica pela USP-POLI, mestre em Engenharia Naval pela USP-POLI, mestre em Gerenciamento de Sistemas de Informação pela PUCC e graduado em Ciência da Computação pela UFSCAR. Pós-doutorado em Engenharia Mecatrônica pela USP-POLI. Coordenador do curso de Gestão de Serviços da FATEC Indaiatuba. Pesquisador do DesignLab-POLI/USP com interesse de pesquisa em engenharia e design de sistemas de serviço automatizados. Experiência de 30 anos como professor universitário em cursos presenciais e EAD de graduação e pós-graduação (PUCC, Metrocamp, FATEC e LFG)